Por Victoria Pannunzio

Nas últimas duas décadas, a expansão vertiginosa das tecnologias digitais transformou de modo profundo a maneira como os indivíduos se relacionam, aprendem e constroem suas identidades. Se, por um lado, as telas de computador e os dispositivos móveis democratizaram o acesso à informação e ampliaram as possibilidades de expressão, por outro, criaram um ambiente propício ao desenvolvimento de comportamentos adictivos e à deterioração das habilidades sociais. Entre adolescentes e jovens adultos, essa dependência assume contornos alarmantes, caracterizando-se pela imersão prolongada em ambientes virtuais e pela substituição progressiva das interações presenciais por contatos mediados por tela.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) reconheceu o transtorno de dependência de jogos eletrônicos (gaming disorder) em 2019. Entretanto, o fenômeno ultrapassa o escopo dos games, abrangendo redes sociais, plataformas de streaming e até o uso compulsivo de navegadores e fóruns digitais. A adicção às telas emerge, assim, como um problema multifatorial que exige compreensão interdisciplinar.

A natureza da adicção digital

Do ponto de vista comportamental, a adicção digital pode ser entendida como um padrão de reforçamento intermitente, nos termos propostos por B. F. Skinner (1953). As notificações, recompensas variáveis e interações sociais on-line atuam como estímulos reforçadores, mantendo o sujeito engajado em ciclos de comportamento repetitivo. Esse padrão aproxima-se do que se observa em vícios químicos: há uma ativação recorrente do sistema dopaminérgico mesolímbico, responsável pela sensação de prazer e motivação.

Estudos neurocientíficos (Young, 2017; Kuss & Griffiths, 2018) demonstram que o uso intenso de dispositivos digitais está associado a alterações em áreas cerebrais envolvidas no controle inibitório e na tomada de decisão, como o córtex pré-frontal. Essa modificação funcional explica a dificuldade de muitos jovens em limitar o tempo de tela, mesmo diante de prejuízos evidentes à vida acadêmica, familiar e social.

Impactos sobre o convívio social e emocional

O uso abusivo de telas provoca isolamento social progressivo, com consequências diretas sobre o desenvolvimento emocional. Em vez de favorecer conexões humanas autênticas, as interações virtuais tendem a ser superficiais, mediadas por algoritmos que reforçam bolhas de afinidade e reduzem a diversidade de experiências sociais. Como observa Turkle (2015), “estamos cada vez mais conectados, mas cada vez menos disponíveis”.

Pesquisas longitudinais (Twenge et al., 2019) apontam uma correlação robusta entre o tempo de exposição a telas e o aumento de sintomas depressivos, ansiedade social e sentimentos de solidão entre adolescentes. Essa correlação é especialmente significativa em faixas etárias entre 12 e 18 anos, período crítico para a formação da identidade e da autoimagem. A busca incessante por validação social, expressa por curtidas e seguidores, gera um ciclo de comparação constante e insatisfação crônica.

Consequências cognitivas e educacionais

Além dos efeitos emocionais, há evidências de que a exposição contínua às telas compromete funções cognitivas fundamentais. O uso multitarefa digital, por exemplo, afeta a capacidade de atenção sustentada, a memória de trabalho e a regulação do foco (Ophir, Nass & Wagner, 2009). Jovens habituados a alternar rapidamente entre aplicativos e abas tendem a apresentar menor desempenho em tarefas que exigem concentração prolongada.

No contexto educacional, o desafio é duplo: de um lado, as tecnologias são ferramentas indispensáveis à aprendizagem contemporânea; de outro, tornam-se fontes permanentes de distração e evasão cognitiva. A pedagogia digital crítica propõe estratégias de uso consciente e intencional das mídias, transformando o aluno de consumidor passivo em produtor reflexivo de conhecimento. Contudo, essa transição exige formação adequada de professores e políticas institucionais que reconheçam os riscos da hiperconectividade.

Família e sociedade na era da hiperexposição

Os pais e educadores enfrentam hoje o dilema de equilibrar o acesso à tecnologia com a preservação da saúde mental dos jovens. Muitos adultos, imersos eles próprios em rotinas digitais, encontram dificuldade em estabelecer limites coerentes. O fenômeno da parentificação digital invertida — quando os filhos ensinam e legitimam o uso das tecnologias para os pais — inverte papéis e enfraquece a autoridade educativa.

É fundamental compreender que a adicção digital não é um problema individual, mas um sintoma de um modelo social estruturado sobre a lógica da atenção. As grandes plataformas competem pelo tempo do usuário, monetizando cada clique e interação. O jovem, portanto, é simultaneamente consumidor e produto desse ecossistema econômico. Essa dinâmica produz o que Byung-Chul Han (2018) chamou de “sociedade do cansaço”, na qual o excesso de estímulos e a autoperformance contínua levam à exaustão psíquica.

1. Identificação de gatilhos e distorções cognitivas

O primeiro passo consiste em mapear os gatilhos situacionais e emocionais que levam o jovem ao uso excessivo da tecnologia — tédio, ansiedade, solidão ou necessidade de aprovação social. A TCC ajuda o paciente a reconhecer distorções cognitivas típicas, como “só sou aceito se estiver on-line” ou “ficar desconectado me faz perder oportunidades”. O reprocessamento desses pensamentos reduz a força dos comportamentos automáticos de checagem e conexão.

2. Treinamento de autocontrole e manejo de impulsos

Técnicas como auto-monitoramento de tempo de tela, diário comportamental e uso programado de aplicativos são incorporadas ao processo terapêutico. O objetivo é restabelecer o senso de controle sobre o comportamento digital, ensinando o jovem a diferenciar uso funcional de uso compulsivo. A introdução de metas graduais e recompensas contingentes favorece a internalização de novos hábitos.

3. Reestruturação de rotina e reforço de atividades alternativas

A TCC também atua na reestruturação de contingências de reforço, incentivando o engajamento em atividades presenciais que gerem prazer e pertencimento — esportes, arte, leitura, convívio familiar. Essa substituição comportamental é essencial para reduzir o vazio deixado pela diminuição do uso digital.

4. Intervenções familiares e psicoeducação

No caso de adolescentes, o envolvimento da família é crucial. A terapia propicia momentos de psicoeducação parental, explicando os mecanismos da dependência e orientando sobre limites consistentes e coerentes. O foco é restaurar um ambiente doméstico previsível e afetivamente disponível.

Pesquisas recentes (King et al., 2020; Su et al., 2022) mostram que programas baseados em TCC apresentam altas taxas de remissão parcial ou total da adicção digital após 8 a 12 semanas de intervenção, especialmente quando combinados com mindfulness e técnicas de regulação emocional. Isso indica que a reestruturação cognitiva, aliada à modificação de hábitos comportamentais, é uma via promissora para a reintegração saudável do jovem à vida offline.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *